Sexta-feira, 11 de Maio de 2007

Mia Couto - O caçador de ausências

 

 Há poucos dias Mia Couto ganhou um prémio.

 Para mim ganhou-o há alguns anos com esta crónica na revista do Jornal Público

 

 O caçador de ausências

Fui salvo por raspão de milagre.ou dando nome ao justo :me salvou o leopardo, mais seu roargido. Mas estou saltando a linha sobre o parágrafo.Comecemos pelo ponto inicial.

Com a licença do acontecido: eu tinha ido insistir com o compadre Vasco Além Disso Vasco para que ele pagasse antiga dívida.Ia na esperança de voltar carregado.Até levava saco vazio para facilitar meu regresso.Há muito que o compadre lhe devia uns dinheirões.Mas ele sempre argumentava - tinha sido a guerra, agora era a paz.

Vasco não devia só a mim, mas ao mundo.Por razão disso,ele se remetera para longuras do além, isoladonos vastos matos.Ele e sua esposa Florinha.Ah a Florinha!Quanta lembrança me encostava essa mulher!Eu tivera um caso com ela, faz tempo.mas tinha sido mais um ocaso que um caso.Eu não me recosturara daquela ferida.Sabem daquela misteriosa luz que parece arredondar o escuro quando apagamos todas as luzes?Pois, Florinha era essa luz.Quando fecho os olhos para me passear no passado, Florinha  é a primeira a visitar-me.Seu corpo não é apenas a primeira memória.Ele é a porta que abre todas as restantes lembranças.

E foi abençoado por essa saudade que cheguei ao lugar de Vasco.bati à porta , ele nem atendeu.Não fugio nem rugio.mandou um miudo com mensagem da sua ausência:não estava e além disso , estava ausente.E mais:Vasco Além Disso Vasco mandara dizer que agora residia em inserteza de parte.Ainda insisti:

- E Florinha também deu ausência?

- Florinha? não sabe o que aconteceu com ela?

- Não.

O miudo falou que florinha figira de casa, numa noite dessas.Diz -se que ela se entranhara na floresta, deambulando sem destino.Ainda lhe seguiram o rasto até à curva do rio.Depois subitamente, nenhuma pegada, nenhum vestígio, nenhuma gota.mal soube da fuga, Vasco ordenou que todos espalhassem vigília e despenteassem capins e arvoredos.Enlouquecido passou o mato a pente fino.Pobre homem:abanava a árvore para cair fruto mas quem tombou foi serpente.A solidão  se enroscou , definitiva no seu viver.E o homem se azedou  a pontos de se raivar contra tudo e todos.Quem sabe tinha sido boa fortuna eu ter falhado encontrar-me com esse Vasco? com certeza , ele me receberia a tiro de espingarda.....

Assim com saco vazio e alma magra, eu me fiz ao mato ensaiando um arrastoso regresso.Trazia comigo o meu nenhum dinheiro, bolço enchido de sopro. um céu triste me enevoava.Pela primeira vez chamava lembranças e a Florinha nãO comparecia.estranhei, com suspeição.Porque ela se tinha retirado da sua ausência??

Meu sobressalto tinha razão.porque sem saber, um contrabandoleiro me tinha seguido desde a cidade.O malandro sabia , por certo, que eu ia colectar um montante.Tomando-me por um zé-alguém, o bandido me emboscou.Saltou de um penhasco, sombra encostando-se-me no corpo.Foi espetando nariz no meu hálito enquanto encostava o cano da espingarda no meu pé.Olhei para baixo, em respeito do medo.

De repente , o valor das minhas partes inferiores se desenhou, superior, ante o meu juízo.Cada pé sustenta mais que uma perna,meio corpo, meia vida.Um pé suporta o p+assado, outro dá apoio ao futuro.Aquele pé que o matulão me ameaçava, eu sabia, aquele pé dava sustento ao meu futuro.

- Esse, não.Lhe peço, dispare no outro pé.

A mão do mautrapilho procurou encosto no meu ombro.era gozo tocar-me?Ou seria o gosto de me ver liquedesfazer em tremuras?Eu já fazia descontos na minha vivência, mais vazado que o saco que tremia em meu regaço.Corajoso é o que esqueçe de fugir?Pois, imóvel fiquei até que se escutou o formidável rugido, clamor de cavernosos dentes.Cruz em peito, credo na boca!O que seria um tal escarçéu?E eis que um leopardo se subitou entre ramos das árvores.E soou o disparo, tangenciando o instante.Tombei no meio de gritaria.Que se passara?O bandido, tomado de susto, disparou em seu próprio corpo.Tudo se passou em fracção de um OH e, no rebuliço, ainda acreditei ver um dedo maiúsculo voando, avulsando pelo ar.mas eu já me desencadeara dali, correndo tanto que os kilómetros se  juntaram às léguas. Em pulos e tropeços, a distância me foi escudando.

Mas contudo e porém.Mordido por ter cão, mordido por não  o ter. E eu me salvava de balázio para me perder na escura selva. Salvei-me da boca, metia-me no dente? olhei em volta e o verde me enleava,pegajoso.Dormi com o relento, lençolei-me com o infinito da estrela.Pensava que era noite de passagem.Mas rodopiei mais noites às voltas, zarantolo.Assisti às quatro estações da lua.Comi raiz, masquei folha, trinquei casca, cuspi-me a mim.Beberiquei orvalhos, na cafeteira da madrugada.

Já eu  tinha perdido contas às manhãs quando ao despertar me rasgou um susto.Focinhando em meu rosto estava o leopardo.Minha alma caiu de joelhos, me entreguei ao meu própio fim. O felinoachegou-see estacou a rasar-me o corpo.Olhei seus olhos, e estremeci até às lágrimas:ali estavam, serenos e espantosos, os olhos de quem eu nunca me curar de  ter amado.

- Florinha!

E mesmo debaixo da tontura entreguei meu rosto, meu pescoço ao afgo.Tanto que não senti nem dente, nem sangue.Outros dizem que foi milagre o bicho não consumar em mim sua matadora vocação.Só eu guardo meus secretos motivos.

fim

Espero que quem tenha lido tudo até ao fim tenha dado o tempo por bem empregue.

 

 

me raparigadoaviao às 15:10
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1 comentário:
De V.A.D. a 12 de Maio de 2007 às 18:11
Foi a primeira vez que li Mia Couto, e de facto dei o tempo por bem entregue. Gostei do estranho linguajar de algumas passagens, e da simplicidade como a história se apresenta. Pode ser que um dia venha a ler mais deste autor...
Bom fim de semana.

Cumprimentos

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